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"A Palavra de Deus em tempos de juízo".

Publicada em: 28/03/2026 07:38 -

Antes de olhar o versículo em si, é importante enxergar o cenário espiritual de Judá.

 


O povo vivia numa religiosidade externa: Templo funcionando, sacrifícios acontecendo, festas, jejuns e todo um aparato religioso. Mas o coração da nação estava distante de Deus, dominado por idolatria, injustiça social e resistência à correção divina.

 

Nesse contexto, Deus levanta Jeremias para anunciar que o juízo está próximo, especialmente por meio da Babilônia. O capítulo 36 mostra um momento decisivo: depois de muitas palavras faladas, Deus ordena que tudo seja colocado por escrito, para que seja lido diante do povo. É uma espécie de “último apelo”, uma convocação séria ao arrependimento, enquanto ainda há tempo para fugir da destruição.

 

Jeremias 36, portanto, não é apenas uma narrativa histórica. É um espelho da maneira como Deus age: Ele fala, repete, registra, proclama e insiste, tudo isso antes que o juízo se cumpra.

 

 

 

Jeremias e Baruque: a cooperação na obra de Deus

 

No versículo 6 lemos Jeremias falando a Baruque:

 

“Vai, pois, tu, e lê no rolo que escreveste, ditado por mim, todas as palavras do Senhor, aos ouvidos do povo, na casa do Senhor, no dia de jejum; e também as lerás aos ouvidos de todo o Judá que vem das suas cidades.”

 

Aqui vemos dois personagens com funções diferentes, mas igualmente importantes.

 

Jeremias é o profeta, o canal direto da revelação de Deus. É a ele que o Senhor fala. Ele recebe, sente a pressão interna da palavra, sofre com a mensagem, enfrenta oposição, mas permanece fiel ao que Deus diz.

 

Baruque é o escriba. Ele não é apresentado como profeta, mas como alguém que escreve e lê. Sua função parece “técnica”, “secundária”, mas na perspectiva de Deus é essencial. É ele que registra cuidadosamente tudo o que Jeremias dita, preservando a integridade da mensagem, e é ele que vai ao Templo para fazer a leitura pública.

 

Esse detalhe nos ensina algo profundo: Deus não trabalha apenas por meio das figuras “centrais” (como Jeremias), mas também por meio daqueles que servem de suporte (como Baruque). Sem o escriba, a Palavra não seria preservada em rolo; sem o leitor, o povo não ouviria. Isso nos ajuda a valorizar os chamados discretos na igreja: professores de EBD, intercessores, quem cuida do som, quem revisa textos, quem organiza estudos. Às vezes, essas pessoas são os “Baruques” que sustentam a proclamação da Palavra.

 

 

 

“Vai, pois, tu”: quando a palavra precisa sair de quem fala para quem ouve

 

A frase “Vai, pois, tu” é pequena, mas significativa. Jeremias está impedido de ir ao Templo (v.5). Pode ter sido uma proibição política, uma restrição das autoridades ou outra limitação. O fato é: o profeta não pode estar fisicamente presente. Mas a Palavra de Deus não pode ficar parada por causa das limitações humanas.

 

Então Jeremias transfere a responsabilidade da leitura a Baruque. Isso nos mostra que a autoridade não está na figura do mensageiro, mas no conteúdo da mensagem. Quem vai ler não é o “profeta famoso”, mas o escriba que o auxilia. Mesmo assim, a leitura terá o mesmo peso, porque o que está em jogo ali são “as palavras do Senhor”.

 

Esse ponto nos ensina que a obra de Deus não pode depender de um só homem, de um nome, de um “grande pregador”. Deus pode usar outro servo, desde que ele seja fiel ao que está escrito. A igreja precisa aprender a confiar na Palavra, não na figura humana que a carrega.

 

 

 

“O rolo que escreveste, ditado por mim”: a importância da Palavra escrita

 

Quando Jeremias diz a Baruque “o rolo que escreveste, ditado por mim”, ele descreve uma cadeia de transmissão muito importante:

 

Deus fala a Jeremias.

 

Jeremias dita a Baruque.

 

Baruque escreve num rolo.

 

Esse rolo será lido publicamente ao povo.

 

Aqui percebemos a seriedade com que Deus trata o registro da Sua Palavra. Não é qualquer coisa. É algo que precisa ser preservado com precisão, por escrito, para ser lido, relido, estudado e transmitido às gerações seguintes.

 

Isso antecipa a formação do próprio livro de Jeremias como nós o temos hoje. E mais do que isso: antecipa o princípio da Escritura como norma escrita da fé. Deus não deixou sua revelação apenas “no ar”, em discursos soltos. Ele quis que fosse registrada, para que ninguém diga: “Não sabíamos”; ou “Não ouvimos direito”; ou ainda “Cada um entendeu do seu jeito”.

 

O rolo na mão de Baruque representa a misericórdia de Deus em fixar por escrito aquilo que Ele diz, para que não se perca, não se altere e não se distorça.

 

 

 

“Todas as palavras do Senhor”: integridade da mensagem

 

Jeremias insiste: Baruque deve ler “todas as palavras do Senhor”. Não é uma seleção do que é agradável, nem um resumo que elimina as partes duras. Envolve:

 

as advertências de juízo;

 

os diagnósticos do pecado do povo;

 

os chamados ao arrependimento;

 

e também as promessas de restauração que Deus tece ao longo da profecia.

 

A integridade da mensagem é um ponto central aqui. O povo não pode ser confrontado apenas com “meias verdades” ou partes confortáveis do discurso divino. Para que haja verdadeiro arrependimento, é necessário ouvir tanto a gravidade do pecado quanto a profundidade da misericórdia.

 

Para nós, isso é uma chamada à fidelidade no ensino bíblico. Quando pregamos, ensinamos ou aconselhamos, não podemos apenas enfatizar o que agrada ou o que é mais “leve”. A Palavra de Deus inclui o juízo, o inferno, a necessidade de arrependimento, a renúncia ao pecado, a santidade. Ignorar esses temas é trair o caráter de “todas as palavras do Senhor”. Assim como Baruque, somos chamados a ler tudo, não apenas partes.

 

 

 

“Aos ouvidos do povo, na casa do Senhor”: a Palavra no centro do culto

 

O local dessa leitura é a “casa do Senhor”, o Templo, lugar de culto, sacrifício e encontro com Deus. E Jeremias enfatiza que Baruque deve ler “aos ouvidos do povo”, ou seja, não é para guardar o rolo, mas para proclamar.

 

Isso mostra que a Palavra de Deus deve ter um lugar central no culto. Não apenas cânticos, não apenas ritos, não apenas formalidades; mas a leitura pública, clara e audível daquilo que Deus disse. O culto, sem a Palavra, corre o risco de se tornar um costume vazio, um hábito religioso desconectado do coração de Deus.

 

Na prática, isso significa que os encontros do povo de Deus, ontem e hoje, são momentos privilegiados de exposição das Escrituras. Naquela época, era o rolo de Jeremias sendo lido. Hoje, é a Bíblia aberta, lida e explicada. A casa do Senhor é, por vocação, um lugar onde Deus fala ao seu povo, e o principal instrumento dessa fala é a Palavra escrita.

 

 

 

“No dia de jejum”: Palavra e quebrantamento

 

O detalhe de que a leitura deve acontecer “no dia de jejum” é muito significativo. O jejum, na Bíblia, é um tempo de humilhação diante de Deus, de reconhecimento de pecado, de busca intensa do perdão e da ajuda divina. O versículo 9 mostra que esse jejum havia sido “proclamado”, ou seja, era um jejum coletivo, provavelmente motivado pela crise política e militar que Judá enfrentava.

 

Deus orienta que a Palavra seja lida justamente nesse dia. Isso é estratégico: num dia em que o povo está mais sensível, mais vulnerável, mais consciente da necessidade de ajuda, Deus faz ressoar sua voz com força. Não basta jejuar; é preciso ouvir o que Deus tem a dizer nesse jejum.

 

Jejum sem Palavra pode virar mera religiosidade, uma tentativa humana de “mexer” com Deus, mas sem permitir que Deus mexa com o coração do homem. Palavra sem quebrantamento, por outro lado, pode ser apenas informação que não gera transformação.

 

Em Jeremias 36:6, vemos os dois juntos: um tempo de jejum e a leitura da Palavra. Esse encontro de circunstância crítica com revelação divina cria um momento especial de oportunidade de arrependimento.

 

 

 

“Aos ouvidos de todo o Judá que vem das suas cidades”: alcance abrangente

 

Jeremias não quer que a mensagem fique restrita a um pequeno grupo. Ele diz que Baruque deve ler a Palavra “aos ouvidos de todo o Judá que vem das suas cidades”. A ideia é alcançar tanto os moradores de Jerusalém quanto os que vêm do interior, de todas as cidades do reino, para o Templo.

 

Isso amplia a responsabilidade. A Palavra não é só para a capital, ou para a elite religiosa, ou para alguns líderes. É para todos. Toda a nação precisa ser confrontada com o que Deus está dizendo.

 

Há aqui um princípio: a revelação de Deus não é privilégio de uma casta espiritual, mas herança de todo o povo. Em termos de aplicação, isso nos lembra que a Bíblia é para a igreja inteira, não apenas para o pastor, o teólogo, o líder. Todos devem ouvir, entender e responder.

 

 

 

O propósito de Deus por trás dessa ordem: arrependimento antes do juízo

 

Se voltarmos ao versículo 3, entendemos o motivo dessa ordem:

 

“Talvez ouçam… e se converta cada um do seu mau caminho, para que eu perdoe a sua iniquidade e o seu pecado.”

 

Deus manda que o rolo seja escrito e lido com um propósito: gerar arrependimento. O juízo está às portas, a Babilônia se aproxima, mas ainda há espaço para misericórdia. O “talvez” de Deus não é um sinal de incerteza da parte d’Ele, mas um modo humano de descrever a liberdade do povo em responder ou não.

 

A Palavra, nesse contexto, é um último convite. Não é apenas um anúncio frio de destruição inevitável. É uma tentativa de salvar, de mudar o curso, de provocar um retorno. O coração de Deus, mesmo diante de um povo endurecido, é o de um Pai que ainda chama, ainda fala, ainda procura brechas para perdoar.

 

Jeremias 36:6, então, é uma cena de graça: Deus faz questão de que eles ouçam claramente, num dia solene, para que não digam depois: “Deus foi duro demais” ou “Não tivemos chance”. Eles tiveram a Palavra lida, explicada e repetida.

 

 

 

Resistência e rejeição: o contraste com a atitude do rei

 

Embora o foco seja o versículo 6, não se pode ignorar o restante do capítulo. Quando a mensagem chega ao rei Jeoaquim, ele responde de forma totalmente oposta à intenção de Deus: corta e queima o rolo, pedaço por pedaço, no fogo do braseiro (v.23).

 

Essa atitude ilustra o que muitos fazem com a Palavra: não rasgam o texto com uma faca, nem queimam fisicamente a Bíblia, mas rejeitam internamente aquilo que Deus diz, ignoram, relativizam, contradizem, defendem seu estilo de vida contra o que a Escritura aponta.

 

Assim, no mesmo capítulo, temos duas respostas possíveis à leitura da Palavra: o caminho do arrependimento, desejado por Deus; o caminho da resistência, praticado pelo rei.

 

Jeremias 36:6 mostra o desejo de Deus. Os versículos seguintes mostram a realidade do coração humano. E isso torna ainda mais sério o chamado: ouvir a Palavra, jejuar, quebrantar-se e voltar-se ao Senhor.

 

 

 

Podemos extrair algumas linhas de aplicação bem claras:

 

Deus continua usando sua Palavra escrita como meio de chamar ao arrependimento. Hoje esse “rolo” é a Bíblia. Ela precisa ser lida, explicada e ouvida com reverência, especialmente em tempos de crise.

 

A obra de Deus não é individualista. Há “Jeremias”, mas também há “Baruques”: pregadores, escribas, revisores, professores, intercessores. Todos cooperam na transmissão fiel da Palavra. Devemos valorizar e assumir nosso lugar nessa cadeia.

 

O culto precisa ter a Palavra no centro. Não apenas música, não apenas forma, mas leitura e exposição da Escritura, para que “aos ouvidos do povo” ressoe claramente o que Deus diz.

 

Momentos de jejum, prova e crise são oportunidades de ouvir Deus com mais profundidade. Em vez de apenas pedir socorro, devemos perguntar: “Senhor, o que queres nos dizer por tua Palavra nesse tempo?”

 

Precisamos fugir da tentação de ser como Jeoaquim, queima a Palavra em seu coração, ainda que a Bíblia continue intacta na estante. Sempre que rejeitamos o que Deus diz, selecionando só o que gostamos, estamos “queimando” partes do rolo.

 

 

 

Jeremias 36:6 como um retrato do coração de Deus

 

Quando juntamos tudo, Jeremias 36:6 nos revela um Deus que:

 

fala com clareza,

 

se preocupa em registrar a sua Palavra,

 

usa diferentes servos para que essa Palavra chegue ao povo,

 

escolhe momentos de humilhação (jejum) para intensificar seu apelo,

 

deseja sinceramente o arrependimento e o perdão,

 

continua insistindo, mesmo diante de um povo que tantas vezes se recusa a ouvir.

 

É a imagem de um Deus que não se cala diante do pecado, mas também não se apressa em destruir. Ele fala, espera, adverte, escreve, manda ler… e ainda diz: “Talvez se convertam”.

 

Ou seja, Jeremias 36:6 não é apenas uma nota histórica sobre Baruque lendo um rolo num dia de jejum. É um retrato da paciência, da seriedade e da misericórdia de Deus, que continua até hoje chamando: “Ouçam minha Palavra enquanto ainda há tempo”.

 

Wilson Teixeira - IEQ IND

 

 

 

 

 

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